1.Quem é a leitora Isabel Vieira? Do que ela gosta?
Sou uma leitora apaixonada. Compro livros frequentemente, preciso sempre ter um ou mais títulos para ler. Anoto a lápis trechos que me agradam e fico atenta às técnicas que o escritor usa. Não gosto de emprestar meus livros. Prefiro emprestar o carro a um livro... rsrs... Gosto de romances, biografias e narrativas de não-ficção.
2.Como é tratar de temas polêmicos: gravidez na adolescência, sexualidade ou bullying em literatura infantojuvenil?
Comecei na literatura juvenil quando trabalhava como jornalista em uma revista para adolescentes, Capricho. Temas desse tipo faziam parte do nosso dia-a-dia. Estava habituada a editar matérias sobre eles. Ao trazê-los para a literatura, procuro não ser moralista nem didática. Tento criar histórias que mostrem diferentes ângulos da questão, para que o leitor chegue às suas próprias conclusões.
3.Na entrevista publicada em seu site, você diz que um professor a incentivou a escrever. Você acha que uma postura de estímulo na educação básica pode gerar bons produtores de texto?
Sem dúvida. Sou a maior prova disso. Devo minha carreira àquele professor. Era apaixonado por literatura e transmitiu aos alunos seu amor aos livros, aos escritores. Se todo professor tiver essa postura, as crianças vão aprender desde cedo a gostar de ler. Para escrever bem, é preciso ler muito. Uma coisa é inseparável da outra.
4.No seu processo de criação, você parte de fatos reais. Isso contribui para uma maior fluidez e vivacidade dos seus textos?
Por tratar de fatos do mundo real, creio que os jovens leitores se identificam com as personagens e as ações do enredo. Muitos me escrevem para dizer isso. Contam que já viveram algo parecido ou que têm um amigo na mesma situação. Eu acho interessante gostarem, apesar da minha linguagem ser, digamos, mais “clássica”. Evito usar gírias ou modismos de época. E agora, mãe? foi publicado há vinte anos e continua atraindo novos leitores. A gravidez precoce ainda é uma realidade nos dias de hoje.
5.Quando as ideias somem no meio da produção de um livro, o que você faz? Isso já aconteceu?
Não costuma acontecer. Antes de escrever, eu planejo o mais possível o livro. Aprendi isso com o escritor Renato Modernell, numa oficina literária. Depois de feita a pesquisa, decido sobre o início e o fim da história, o número de capítulos e o conteúdo de cada um. Isso evita que me perca no caminho. Mas não impede que, às vezes, o texto não renda bem num dia. Nesse caso, faço o que ensinava o escritor americano Ernest Hemingway: só interrompo o trabalho num ponto em que saiba continuá-lo no dia seguinte.
6.Você já escreveu duas obras ao mesmo tempo? Se o fizesse, como seria o processo?
Nunca. Acho que não conseguiria...
7.Sua obra Uma garrafa no mar é um romance que nos acalenta, envolve e emociona. O que ele tem de real e de ficcional?
É uma trama inventada, mas que poderia ser real. Garrafas são jogadas no mar e chegam a algum lugar. Outro dia vi uma história dessas no Facebook. No caso do meu livro, a inspiração surgiu ao ler uma matéria na revista Terra. Duas meninas americanas lançaram uma garrafa na costa dos Estados Unidos, no último dia das férias, só por brincadeira. Meses depois, ela foi achada na França por um garoto de treze anos. Ele respondeu à mensagem e ficaram amigos. Achei incrível! Numa época de comunicações instantâneas, e-mail, twitter etc, dois jovens se conhecem através de algo tão antigo, uma garrafa de náufrago! Era um bom pretexto para tratar do tema da comunicação. Como eu queria um cenário brasileiro, pedi ajuda a um professor de Oceanografia da USP, que me falou sobre correntes marítimas e traçou os possíveis percursos da garrafa. Ele disse que ela deveria sair do Nordeste. Escolhi Natal porque conheço bem a cidade (onde hoje moro). Poderia chegar ao Golfo do México, à África ou ... Quando o professor mencionou a Nova Zelândia, decidi mandá-la para lá, pois, como jornalista, eu já havia feito uma reportagem naquele país. Sobre Nara, a menina que não sabe lidar com máquinas e tem dificuldade para aprender inglês, acho que me inspirei em mim mesma... em uma versão mais jovem, obviamente.
8.Como é possível transitar em vários estilos literários? Mudar de um livro bem romântico para outro que trata de eutanásia, por exemplo? Em suas obras, você faz como Clarice? Abandona-as após entregá-las ou fica sempre revendo-as?
Tragédias, paixões, fatos engraçados, romantismo, tudo isso acontece na vida real das pessoas, não é verdade? Às vezes, simultaneamente... O livro A balada da lua azul, que trata de eutanásia e da violência causada pelas drogas e pelo trânsito, também tem momentos românticos. Corrijo muito meus textos enquanto os escrevo e faço uma última revisão quando recebo as provas da editora. Depois disso, não gosto mais de mexer em nada. Em raros casos, fiz algumas atualizações anos depois, para edições reformuladas ou reimpressões.
9.Que autores brasileiros você gosta de ler?
Na adolescência, meu preferido era Jorge Amado, que um tio liberal me emprestava, escondido da minha mãe, pois era tido como um autor “forte”... rsrsrs... Adoro Caio Fernando Abreu e os poetas Carlos Drummond de Andrade, Adélia Prado e Thiago de Mello. Curto muito os livros de não-ficção do jornalista Fernando Morais e os romances do meu amigo Renato Modernell.
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Responda: Que mensagem você colocaria numa garrafa e arremessaria ao mar?
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